quinta-feira, 19 de julho de 2007

Intemporal vaidade

Caminhava a passos largos para os seus setenta anos. Tinha uns certos tiques parecidos com a minha avó. Não na vaidade, mas na forma como se movia, com graciosidade, ainda que amarrada a um corpo com as deformações próprias da idade. Notava-se que não tinha sido uma mulher elegante, mesmo no auge do seus dias. Dedos sapudos, cujos anéis em quase todos (à excepção dos polegares) vincavam os anos de uso. No anelar esquerdo, um de casada e outro de bodas, intervalo por um de curso. Como não sei as cores correspondentes, assumi que fosse do antigo magistério público. Tinha ar de quem andava de régua na mão a ensinar a tabuada e de quem mexeu gastou milhares de paus giz na lousa durante muitos e muitos anos.
Olhos verdes bonitos, cabelo (obviamente) pintado de um castanho claro, mas as sardas dos braços já eram grandes demais e denunciavam o envelhecimento da pele. Unhas pintadas de um salmão suave. Camisola de malha fina e com um colar de pérolas de viveiro, ligadas por três ou quatro elos de metal, que findava num nó abaixo do peito já descaído!
O que me fez observá-la foi o facto de estar a escrever no telemóvel. Escrever, sim com caneta. Tirou um modelo (mais ou menos) recente da SonyEricsson da sua mala branca e começou a escrever com uma esferográfica fina de metal nas costas do aparelho. Arregalei os olhos, mas só depois vi que escrevia num papel autocolante que estava fixado na bateria do telemóvel. Apeteceu-me perguntar o que apontava, mas achei que os alvos de observação deixam de se comportar naturalmente quando sabem que estão a ser, precisamente, observados. Não devia, por isso, interferir.
Guardou o telemóvel na mala e tirou uma caixinha negra, quadrada, com o símbolo da Chanel, e colocou um pouco de base na cara. Olhou bem para o pequeno espelho, pousou a almofada no seu lugar e pegou num baton que passou sem pressas pelos lábios. Rosa claro. Que mistura de cores, pensei. Fez o habitual gesto de esfregar o lábio superior no inferior para espalhar bem a cor e sorriu, quase imperceptivelmente. Fechou a caixa e olhou em volta, para ver se alguém reparava nela. Os meus olhos estavam escondidos pelos óculos de sol.
Tirou um rebuçado branco "Bola de Neve", daqueles da Vieira envoltos em papel transparente vermelho, da sua carteira. Desembrulhou-o, e meteu-o à boca. Guardou o papel amachucado na mala e saboreou. Inspirou fortemente e descansou.
Imaginei que razão haveria para uma senhora daquela idade, que me fez lembrar a minha avó (até pelo pormenor dos rebuçados, que tinha sempre consigo, não só para si como para dar às crianças!), estar com tanta cerimónia de vaidade num local tão público? Inspirei, eu, fortemente e descansei ao pensar que pode estar, simplesmente, de bem com o Mundo e ter os seus níveis de auto-estima bem perto do limite máximo. Que bom que era se todas as pessoas da sua idade pudessem gabar-se do mesmo.

1 comentário:

Alma Sentida disse...

Palminhas!!! E Bom Regresso! E se todos fossemos assim, mesmo agora?